mais um dia qualquer…

 

Meu vô teve um problema… uma isquemia. Em casa há 3 semanas (eu acho), já vive sua vida “normalmente”, quer dizer, quase normalmente, hoje, ele não está dirigindo, tomando mais remédios que antes, e depois do problema, ele vive acompanhado 24 horas por dia, ou quase isso, talvez umas 22 horas e 37 minutos (dia). Só fica sozinho no tempo em que (sempre) os mesmos que se alternam para lhe fazer companhia se desencontram por alguns minutos (no total mais ou menos uma hora e 23 minutos por dia).

Nos momentos que me sirvo para essa companhia, a faço com boa vontade e sem qualquer porém ou senão. Gosto muito do meu avô e o tenho como exemplo de trabalho, luta e dedicação (em qualquer atividade) e também sinto todo o carinho que ele sempre teve por mim.

Depois de assistirmos televisão, ele olha nos dois relógios, o de pulso e o (muito) velho relógio vinho de parede na copa e diz que já está cansado e que vai dormir. Vai ao banheiro, escova os dentes, liga o chuveiro (talvez um banho) e só depois de muito tempo se deita, e fica então mais um longo tempo com a TV ligada (uma de suas grandes companheiras por toda a vida).

Enquanto fico fazendo companhia a ele, estou na casa de minha Vó (ela não está mais aqui, mas pra mim sempre foi assim, a casa dela). Todas as vezes que venho aqui, me recuso a ir deitar pois não tenho sono cedo e sozinho aqui, me falta entretenimento ou opção de trabalho (tenho dificuldade de trabalhar em outro PC que não o meu). Então fico vagando, vendo, observando a casa do mesmo jeito onde ela sempre esteve, mas como há muito tempo não a via. Me sinto como em um museu. Há muitas coisas velhas, mas não dignas de um museu de verdade, é um museu da minha vida.

O quarto em que me encontro já foi de muita gente, o ultimo dono foi meu tio e agora é da casa. Este quarto já foi meu. Durante muito tempo eu me sentava aqui por horas para “estudar” e fazer lições que a escola e minha vó me passavam (a verdade é que estudar nunca foi o meu forte).

Muitas vezes minha vó saía pra comprar pão e uma “bobaginha” pra mim, sempre claro, com a instrução de terminar o dever, e eu desandava a fuçar as coisas (sempre aprendi muito mais pela curiosidade do que pelo estudo). Gostava das coisas velhas, de ver como tinham sido lanternas, rádios, revistas, livros, brinquedos, canetas; gostava de tentar dar utilidade as coisas, de tentar fazer o que está parado, funcionar.

Hoje já não tento fazer mais nada funcionar, é muita coisa velha pra se colocar em uso, só de ver à minha frente uma infinidade de fitas k7 e CDs do meu tio já desisto rápido, me dou por vencido (a internet acabou com a graça do mundo, não existe mais curiosidade, ta tudo aqui, basta clicar). Me contento em apenas fuçar. Da ultima vez que dormi aqui, fora muitas fotos antigas, eu achei um uma caixa com alguns cachos do meu cabelo. Minha vó os guardou depois de uma das primeiras vezes que o cortei. Não lembrava disso e não imaginava que ainda existissem. Não me emocionou, na verdade nada disso me emociona ou me toca…apenas acho engraçado, divertido e parte da minha história em comunhão com o mundo, eu, vivo, sem estar ali. Tudo muito interessante, um pedaço de vida parado no tempo e sem ter mais para onde ir. Enfim…

 

Me sentei com o propósito escrever sobre outros assuntos totalmente diferentes que se estacionaram no meu fígado depois de ver um jornal na TV, ler outro impresso e ler uma revista, mas pra minha sorte, onde o tempo passa diferente estas coisas perderam rapidamente o lugar, este texto começou e tomou a vez; criou-se por si só e o fígado se preocupou apenas com a pipoca de minha vó que eu mesmo fiz.

 

a casa – vinícius de morais

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5 Comentários em “mais um dia qualquer…”

  1. Marco Puccinelli Says:

    Bem legal seu texto Peter, a vida vai passando e nossas coisas viram peças de museu. Só nós não podemos fazer parte do museu, passar por ele tudo bem. Um bom dia pra você cara, fique com Deus.

    • sara Says:

      Primo,
      adoro passear pelo seu blog, especialmente, quando você fala da família, da vó, da casa da vó (pra mim também é assim)!
      Nesse texto de “brotamento espontâneo”, mais uma vez, (não era sua intenção, eu sei!) me emocionei!
      Escreva mais… A escrita também é uma das peças (e das mais valiosas) desse museu dos coutinhos e campos…
      Beijos

  2. Isabella Says:

    muito bom…. nostalgiaaaa

  3. Regina Sobreiro Says:

    Pedro,
    Que texto bonito! Claro e encantador. Já li outros e também gostei. Continue a nos encantar.
    Abração

  4. Regina Says:

    Como uma destas passantes por ali, me vi ao seu lado, vasculhando e descobrindo. Obrigada por letrar os pensamentos.

    Beijos,

    Tia Regina


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