“Classe” Média. Um tremendo mau cheiro.

Este texto é meio que um apêndice ao anterior, leiam o ultimo que cês vão entender.

Enquanto escrevia o texto do ultimo post, eu comecei a perceber uma ligação da notícia do pai matando o filho com alguma história que não conseguia distinguir qual. Continuei a escrever sem fazer idéia do que era. A semelhança era óbvia, mas eu não conseguia ver exatamente com o que. Fui em frente, quando já no final do texto me veio a “luz”:

Isabella Nardoni.

Assim, tão óbvio. Matutei comigo “como eu não pensei nisso antes?”. Era sem dúvida fácil de fazer uma ligação entre o assunto bizarro do pai atirando no filho com a história não menos bizarra da garotinha jogada pela janela pelo próprio pai. Parei, raciocinei e fiquei tentando entender porque eu havia pensado tanto naquele assunto a ponto de escrever sobre e ainda assim não ter feito uma associação com o caso tão semelhante que estava sendo vomitado pela mídia, a torto e a direito na cabeça de todo mundo. Foi aí que me veio a segunda “luz”:

O caso Nardoni vinha, como também foi à época do incidente, sendo coberto de forma Hollywoodiana no melhor estilo “O.J. Simpson”. Todos os jornais e revistas publicavam várias matérias sobre o assunto (de novo), os telejornais falavam do julgamento sem parar e em alguns momentos a Rede Globo chegou a interromper sua programação para dar notícias em tempo real do desenrolar do caso enquanto que o outro fato foi noticiado como só mais um.

Pensei mais (essa história toda me queimou um fosfato danado) “porque um pai atirar no filho é comum e o outro jogar pela janela não é?” não podia ser pelo 6º andar jornalistas nem são tão ligados em numerologia assim. Foi aí que veio a terceira “luz” (e essa foi forte viu, tipo 200 watts):

O camarada com o filho era um Zé Ninguém, um pé rapado que queria a mulher de volta e matou alguém por isso (esse “causo” se vê nos jornais Super e Aqui todos os dias e várias vezes na mesma edição), enquanto que o outro era um Alexandre Nardoni. Tinha nome, tinha “status”. Não era mais um assunto batido de violência urbana de periferia, era um sujeito estudado, bem empregado, de “boa” família. Era um cidadão brasileiro de “Classe” média. Aí estava o problema. Pobre, pode matar, a notícia vai ser dada da forma mais sensacionalista possível, o sujeito vai ser abominado, e passados um ou dois dias tudo estará esquecido, aconteceu tão longe, muda pro canal Sony e segue a vida.

Agora, quando um sujeito, da “Classe” Média que se parece com você, que estudou como você, que tem um bom emprego como você, tem um carro como o seu e que faz parte da classe “pensante” do país (aquela que lê revista Veja) igualzinho a você, mata a filha, a coisa se torna inexplicável. Não inexplicável do tipo “ô meu Deus, porque ele fez isso?”, inexplicável do tipo “um cara que tem tudo, tão bem de vida, pega e faz uma coisa dessas, por quê?”. Nessas horas você sente até o mau cheiro da garotinha morta, bem perto, como se ela tivesse caída ali, na sua porta, é quase palpável, chega a dar náuseas. Aí vem o susto, você se vê ali, vê que coisas assim também podem acontecer com você, pode acontecer na sua casa, pode acontecer na sua família, e que o cheiro não é da garotinha morta, é seu, é cheiro do comum, o mesmo cheiro do menino pobre morto pelo pai. Cheiro que o “Classe” média acha horrível, intragável. E o que esse ser macacoide faz nessa hora de forma tão melhor que a aceitação e a busca pela mudança?  A NEGAÇÃO!

O cidadão de “Classe” média quer a condenação, a prisão, a excomungação, o sumiço.

– Tranquem eles juntos com, Suzane Von Richthofen, Marcos Valério, Arruda e joguem a chave fora. Bem longe. Pra que esse cheiro insuportável suma daqui e nossa vida continue a ser feliz alheia aos problemas periféricos.

Joga um bom ar, faz uma pipoca com cheirinho bem amanteigado,  liga no telecine e vai ver um filme  regado de bastante violência e pronto. Passou.

Mas quer saber? A verdade meu amigo, é que você pode usar Gucci, Pólo ou Armani, no final você fede do mesmo jeito.

Segue aí a música do Rappa – Não Perca as Crianças de Vista.

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One Comment em ““Classe” Média. Um tremendo mau cheiro.”


  1. Bela reflexão, macacão!
    Carlos Wagner


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